Contra a Retórica da Modernização: A Defesa da Universidade Pública e a Denúncia do Novo Neoliberalismo Acadêmico na UEFS
24/04/2026
A tentativa de rotular a atuação da ADUFS como
"anacrônica" ignora que o embate sobre as minutas de resolução no
Consu e Consepe da UEFS está inserido no que pesquisadoras e pesquisadores definem como o
"novo neoliberalismo acadêmico”. Longe de ser um apego ao passado, a
resistência sindical é uma resposta técnica e política a um fenômeno que
"estabelece o empreendedorismo como cultura a ser disseminada pela
universidade; difundem o gerencialismo; e precarizam as relações de trabalho"
(Costa; Silva, 2019, p. 23).
1. A Modernização como "Desresponsabilização
do Estado"
O discurso de inovação tecnológica e autonomia
financeira oculta uma disputa orçamentária profunda. As novas regulamentações
acentuam a fragilidade dos recursos públicos e promovem a desresponsabilização
do Estado em garantir o orçamento das universidades (ANDES-SN, 2026). Este
modelo visa "criar as condições para que o Estado possa ser
desresponsabilizado pela manutenção das universidades públicas", atrelando
o financiamento ao desempenho e à captação externa (COSTA; SILVA, 2019).
Essa política confirmada pelos dados apresentados pelo Sindicato
Nacional demonstram o estrangulamento real das
instituições federais e Cefets. Em termos gerais, observa-se uma queda
acentuada das despesas discricionárias — aquelas destinadas ao custeio e aos
investimentos — que são fundamentais para o funcionamento cotidiano das instituições
(ANDES-SN, 2026). Entre 2015 e 2025, esses recursos foram reduzidos de R$ 16,1
bilhões para R$ 7,6 bilhões (valores corrigidos pela inflação), ou seja, menos
da metade do montante original. Esse encolhimento compromete diretamente
despesas essenciais como energia, água, contratos terceirizados, manutenção
predial e políticas de permanência estudantil, evidenciando um processo de
estrangulamento operacional das universidades.
No plano das universidades públicas estaduais da
Bahia, a luta histórica do movimento docente da Bahia é pela garantia de um
orçamento mínimo de 7% da Receita Líquida de Impostos (RLI) destinado às
Universidades Estaduais Baianas (UEBA). Entretanto, o governo estadual vem
executando, sistematicamente, valores inferiores a 5% da RLI nos últimos anos,
como demonstram os dados da Tabela 1. Mesmo em contextos de crescimento da
arrecadação, a participação das universidades no orçamento tem sido reduzida.
Um exemplo emblemático ocorreu em 2021 que, apesar da arrecadação de impostos ter
aumentado 26%, o investimento nas UEBA caiu de 4,04% para 3,41% da RLI em
relação ao ano anterior.
Tabela 1: RLI
e Orçamento das Universidade Estaduais da Bahia (2014-2025)
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ANO
|
RLI
|
Orçamento das UEBA
|
Participação % UEBA/RLI
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2014
|
R$ 21.459.305.900
|
R$ 1.151.239.498
|
5,36%
|
|
2015
|
R$ 23.715.742.864
|
R$ 1.275.109.777
|
5,38%
|
|
2016
|
R$ 25.212.834.990
|
R$ 1.219.900.621
|
4,84%
|
|
2017
|
R$ 26.042.458.481
|
R$ 1.310.326.041
|
5,03%
|
|
2018
|
R$ 28.559.697.585
|
R$ 1.314.509.710
|
4,60%
|
|
2019
|
R$ 30.284.074.827
|
R$ 1.324.146.358
|
4,37%
|
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2020
|
R$ 30.978.445.139
|
R$ 1.252.970.009
|
4,04%
|
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2021
|
R$ 39.046.121.302
|
R$ 1.331.115.459
|
3,41%
|
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2022
|
R$ 43.868.430.498
|
R$ 1.490.273.992
|
3,40%
|
|
2023
|
R$ 46.697.867.566
|
R$ 1.770.204.538
|
3,79%
|
|
2024
|
R$ 52.925.054.057
|
R$ 2.043.113.419
|
3,86%
|
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2025
|
R$ 57.396.934.345
|
R$ 2.305.350.209
|
4,02%
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Fontes:
RREO/BGE/BAHIA (2007-2024) - Elaboração própria GT Verbas e Fundações
(ADUFS-BA).
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2. O Risco da Mercantilização e o "Docente
Empreendedor"
A estratégia de "modernização" transfere
para os docentes a responsabilidade pela aquisição de recursos da iniciativa
privada. Essa lógica transforma o professor-pesquisador-extensionista em um
"captador-empreendedor", subvertendo o trabalho acadêmico à busca de
resultados econômicos imediatos (VALDO; MELIM; TEIXEIRA, 2021).
Essa subordinação aos interesses de mercado fere o
princípio constitucional da autonomia plena (Art. 207 da CF/88), pois permite
que entes externos obtenham controle sobre a produção científica, tornando o
conhecimento "imediatamente útil para quem financia tais atividades"
(RAMOS, 2015). Como alerta o Sindicato Nacional, tal mercantilização
"empobrece a elaboração científica" ao priorizar nichos rentáveis em
detrimento do interesse social e do conhecimento crítico (ANDES-SN, 2011;
2026).
3. Falsa Autonomia e a Dependência de Emendas
Os discursos defendem as parcerias como via
de desenvolvimento, mas ignoram que o financiamento via emendas parlamentares e
parcerias privadas produz dados que acabam por encobrir e mascarar a condição
de penúria estrutural vivida pelas IES. O aumento do peso das emendas
parlamentares é um "atentado à autonomia universitária", pois as
instituições perdem o poder de alocar recursos segundo suas próprias decisões
colegiadas (ANDES-SN, 2026).
A ampliação do peso das emendas parlamentares
indica uma mudança qualitativa no padrão de financiamento: em vez de recursos
estáveis e previsíveis, as instituições passam a depender crescentemente de
alocações fragmentadas, muitas vezes condicionadas a interesses políticos
específicos. Isso fragiliza o planejamento institucional de médio e longo
prazo.
No que se refere às despesas obrigatórias, que
incluem principalmente salários e previdência, o cenário é de estagnação real.
Embora tenham apresentado variações nominais decorrentes de reajustes pontuais,
os valores corrigidos pela inflação mostram crescimento praticamente nulo —
passando de R$ 31,1 bilhões em 2015 para R$ 32,3 bilhões em 2025. Essa dinâmica
revela que os reajustes não acompanharam a inflação, resultando em perdas
salariais acumuladas para docentes e técnicos-administrativos (ANDES-SN, 2026).
Em síntese, os dados revelam não apenas uma redução
quantitativa dos recursos, mas uma reconfiguração regressiva do financiamento
público da educação superior federal, com impactos diretos sobre a qualidade do
ensino, a pesquisa, a extensão e as condições de trabalho nas instituições.
Trata-se de um processo que tensiona o próprio projeto de universidade pública
no Brasil.
Portanto, a leitura dos dados das universidades
federais e dos CEFETs sinaliza o risco concreto de difusão dessa lógica para as
universidades estaduais, com implicações ainda mais graves, dado o histórico de
maior vulnerabilidade orçamentária desses sistemas.
O ponto central de alerta reside na naturalização
de um modelo de financiamento instável, fragmentado e politicamente
condicionado. Ao articular os dados sobre o financiamento das universidades
federais e dos CEFETs com a realidade das instituições estaduais, o quadro que
se delineia é de expansão de uma lógica de subfinanciamento estrutural que
ameaça a sustentabilidade do ensino superior público como um todo.
No caso das federais, a combinação entre queda das
despesas discricionárias, estagnação das despesas obrigatórias em termos reais
e crescente dependência de emendas parlamentares revela um padrão de
financiamento instável, fragmentado e politicamente condicionado. O risco,
contudo, não se limita a esse subsistema: há sinais claros de que essa
racionalidade pode se difundir para as universidades estaduais, onde as
condições de financiamento já são, em muitos casos, mais frágeis e suscetíveis
a oscilações fiscais e disputas políticas.
Essa possível transposição é particularmente
preocupante porque tende a aprofundar processos de precarização já em curso,
comprometendo não apenas a gestão institucional, mas o próprio papel
estratégico das universidades no desenvolvimento regional. Dessa forma, a
precarização do financiamento e a falta de previsibilidade orçamentária são
obstáculos à autonomia universitária e ao desenvolvimento socioeconômico da
Bahia. Conclui-se que a garantia da vinculação de 7% da RLI e a execução
integral da LOA são fundamentais para que as UEBA cumpram sua função social com
eficiência e governança democrática, de forma autônoma.
4. O Sindicato como "Vértebra" da
Resistência
Ao contrário do que se afirma, o caráter
classista e independente do sindicato é o que garante que o labor acadêmico não
seja apartado da realidade social. Como afirma o filósofo Antonio Gramsci,
"os sindicatos são as vértebras sólidas do grande corpo da classe
trabalhadora", essenciais para enfrentar as vicissitudes históricas que
precarizam o trabalho (ANDES-SN, 2026). A luta da ADUFS, portanto, é pela
gestão democrática e contra as reformas gerencialistas que alinham a educação a
uma lógica estritamente neoliberal.
Em termos mais amplos, o que está em disputa é o
modelo de universidade pública que se pretende sustentar: ou se reafirma um
pacto de financiamento estável, orientado pelo interesse público e pela
autonomia institucional, ou se consolida um cenário de dependência e
instabilidade que pode levar, especialmente no âmbito estadual, a um processo
de erosão sistêmica das capacidades acadêmicas, científicas e sociais dessas
instituições.
Referências
ASSOCIAÇÃO DOS DOCENTES DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE
FEIRA DE SANTANA. Roda de Conversa "Contra a Privatização da UEFS".
Feira de Santana, 2026.
COSTA, Camila Furlan da; SILVA, Sueli Maria
Goulart. Novo neoliberalismo acadêmico e o ensino superior no Brasil. REAd.
Revista Eletrônica de Administração, Porto Alegre, v. 25, n. 3, p. 6-35,
2019.
FARGONI, Everton Henrique Eleutério; SILVA JÚNIOR,
João dos Reis; CATANI, Afrânio Mendes. Capitalismo acadêmico e a competição
alienante entre professores-pesquisadores nos rankings de educação superior. Inter-Ação,
Goiânia, v. 49, n. 2, p. 1113-1131, 2024.
RAMOS, Giovane S. Universidade pública e
fundações privadas: a refuncionalização da universidade brasileira. 2015.
Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2015.
VALDO, João Paulo da Silva; MELIM, Juliana
Iglesias; TEIXEIRA, Rafael Vieira. A regulamentação das parcerias
público-privadas como tática para aprofundar a privatização das universidades
federais [...]. Textos & Contextos, Porto Alegre, v. 20, n. 1, p.
1-13, 2021.
SINDICATO NACIONAL DOS DOCENTES DAS INSTITUIÇÕES DE
ENSINO SUPERIOR (ANDES-SN). Mercantilização da universidade empobrece provoca o
empobrecimento da elaboração científica [...]. InformANDES, n. 2, set.
2011.
SINDICATO NACIONAL DOS DOCENTES DAS INSTITUIÇÕES DE
ENSINO SUPERIOR (ANDES-SN). InformANDES Informativo. n. 171. Brasília
(DF), fev. 2026.