Feliz dia para quem? Nos queremos vivas, livres e sem medo para celebrar o Dia das Mulheres
07/03/2026
Neste Dia Internacional das Mulheres amargamos a notícia de que a violência contra as mulheres, o que inclui o feminicídio e o estupro, se tornou uma emergência global. As mulheres e as meninas enfrentam cada vez mais violação dos seus direitos. Embora haja uma percepção de que a violência letal esteja concentrada nos grandes centros, os dados apontam que o avanço significativo ocorre justamente nas cidades com até 100 mil habitantes onde há menos estrutura de proteção. É o que revela a pesquisa 'Retrato dos Feminicídios no Brasil', do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Com frequência nos perguntamos se as pessoas estão se tornando mais violentas ou somos nós que temos mais acesso à informação. Sim, o mundo está mais perigoso e, de modo geral, há uma onda de dessensibilização da violência. A escalada de conflitos armados, exterminando grupos minoritários nos últimos 15 anos, e a reação cada vez mais limitada sobre eles mostram como, de modo geral, temos normalizado esses acontecimentos. Nós, enquanto conglomerados de poder. A violência voltou a ser a base de organização do mundo. Quando partimos para a esfera doméstica, onde mulheres cis e trans, sobretudo negras, são vitimadas, inclusive, pelos seus próprios companheiros, entendemos a gravidade do problema ao reconhecer que nem todo crime parte do ódio desmedido, por razões pontuais ou é praticado por um suposto monstro.
Defender estas narrativas simplistas é tirar destas mulheres sua total capacidade crítica para identificar em cada experiência onde reside um algoz, assim como seu poder de agência na situação. Acreditem, mesmo mulheres que poderiam escrever dissertações inteiras sobre violência de gênero e atuar no seu combate, temem esbarrar com os tais sinais ocultos que depois do fato consumado tornam-se tão evidentes para o conjunto da sociedade. Inúmeros casos letais podem comprovar este dado.
A necessidade de patologizar ou transformar em monstro cada sujeito que comete um crime, só corrobora com a negação de que este é um problema estrutural. Problema que está na educação doméstica e formal, na igreja, nos locais de trabalho, na conversas dos bares e se multiplicam sob risos incontidos ou silêncios por trás de declarações que fomentam machismo e misoginia desde a mais tenra idade. É um problema coletivo de saúde pública. Ao individualizar problemas sociais repetimos a lógica de culpabilizar a vítima. Não por acaso, imprensa, sociedade civil e autoridades seguem na busca incessante pelas “justificativas” para as atrocidades, enquanto aguardamos o próximo caso.
O resultado disso é drástico: Vítimas e agressores não costumam se reconhecer nesses papéis demarcados. A partir daí, os mecanismos de proteção já conhecidos passam a ser inoperantes para as vítimas, assim como não há noção de responsabilização por parte do culpado que pode transformar a violência em letal.
Diante de casos, cada vez mais violentos, nos parece caro atuar em duas frentes: Lutar pela ampliação da eficácia de políticas públicas de combate e proteção das vítimas, assim como de punição aos culpados; e aumentar os mecanismos de conscientização acerca da responsabilização coletiva da violência, com a participação maciça de homens para somar na construção de saídas.
A Adufs, junto ao Andes-SN, seguirá somando nas trincheiras de combate as violências contra mulheres cis e trans, para que um dia tenhamos, de fato, condições para celebrar o 08 de março ao lado de mulheres vivas, livres e sem medo.