Neste período junino, reforçar as medidas sanitárias de segurança é indispensável para conter uma alta de casos e mortes em todo o Estado

21/06/2021

A proximidade dos festejos juninos acende o alerta para a possibilidade de aumento de casos de contaminação e mortes pela Covid-19 em toda a Bahia. Mesmo com o cancelamento das festas, no ano de 2020 foi registrado um alto índice de contaminação nas cidades que tradicionalmente reúnem milhares de visitantes todos os anos para as festas de São João. O crescimento de casos em alguns municípios foi de 800% mas chegou em até 1000%, segundo dados da Secretaria Estadual da Bahia em 2020. Enquanto o crescimento médio de casos no Brasil foi de 45,6% entre os dias 23 de junho e 07 de julho, na Bahia este número chegou a 87,3%.

Junto com o aumento da transmissão do vírus, vem as superlotações do Sistema Único de Saúde (SUS), a falta de insumos e as mortes. A cidade de Cachoeira, conhecida também pela grande festa junina, restringiu a entrada somente a moradores até o dia 29 de junho. A possibilidade de uma onda de casos assusta ainda mais em relação ao ano passado porque desta vez a variante P.1 mais contagiosa e letal, descoberta inicialmente em Manaus, é a predominante nos casos de transmissão comunitária na Bahia e ainda convivemos com o risco da disseminação da variante Delta, identificada inicialmente na Índia, passar a dominar os casos.

Como forma de conter o aumento do número de casos neste período, o governo do Estado suspendeu o transporte intermunicipal em toda a Bahia entre os dias 20 e 27 de junho. A preocupação não deve se resumir apenas às viagens, é preciso não realizar aglomerações em ambientes domésticos.

Não pode fazer aglomeração com familiares

O aumento de casos em períodos culturais festivos já é uma constatação desde o início da pandemia. Semana Santa, Natal, Ano Novo, Carnaval são alguns dos exemplos de como as questões de biossegurança não conseguiram se sobrepor as às questões culturais de cada território para evitar as aglomerações nestes períodos característicos pelas reuniões familiares. Esta é mais uma consequência da falta de coordenação nacional que além de não oferecer informações corretas para incentivar a utilização de medidas sanitárias, não ofereceu um suporte multidisciplinar para as questões socioeconômicas, logo, não foi possível avançar do ponto de vista de criar estratégias de ação em relação a ritos centenários que estão, na maioria das vezes, relacionados à religiosidade e por princípio se realizam por meio das reuniões de pessoas.

O fato é que, sobretudo pela negligência dos governos e de um SUS completamente desgastado tanto do ponto de vista de sua estrutura já sucateada quanto em relação aos profissionais que atuam na linha de frente, é preciso que as ações individuais de proteção se sobreponham para se evitar ainda mais tragédias coletivas. O aumento do número de mortes de pessoas da mesma família desde fevereiro deste ano, revela quão perigosas são as reuniões familiares de pessoas que não convivem na mesma casa. Relatos de famílias que perderam quatro, cinco, seis familiares se tornaram mais corriqueiros e entre eles uma característica comum, a descoberta da contaminação se deu após encontros familiares de pessoas de diferentes núcleos. Por isso, não basta apenas não viajar, é necessário não se reunir com familiares e amigos para bloquear a circulação do vírus.

Se isolar somente de pessoas sintomáticas é um erro que pode ser fatal

Pesquisa realizada pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) com pessoas assintomáticas em locais de grande circulação do município constatou a presença de carga viral alta e a presença predominante da variante P.1, de Manaus. Nas 1400 amostras coletadas, foram identificadas 143 pessoas infectadas pela Covid classificadas como assintomáticas. As amostras foram colhidas no período de 08 de abril a 18 de maio, através do exame RT-PCR, no estacionamento em frente ao Paço Municipal, Centro de Abastecimento e na praça do Tomba.

Os resultados da pesquisa "Vigilância Epidemiológica e Genômica da Covid-19 de indivíduos em Grandes Áreas de circulação em Feira de Santana" foram divulgados no último dia 18 de junho e revelam a gravidade de promover encontro entre pessoas conhecidas baseado na confiança de que não apresentam sintomas da doença. O que expõe todo o grupo a uma contaminação pode levar famílias inteiras à morte como tem sido registrado em todo o país. Em resumo, não faça visitas e não receba.

Confiar apenas na primeira dose da vacina é um erro

Apesar do alívio de receber a primeira dose da vacina, somente uma dose não é capaz de conter o agravamento da doença. Em relação à variante Delta, por exemplo, que é 60% mais transmissível do que a P.1, as vacinas Oxford e Pfizer não garantem uma alta proteção a ela com apenas uma dose - ainda não há estudos relacionados à Coronavac - e especialistas apontam para a possibilidade de uma terceira onda levantada pela sua disseminação em território nacional. Ainda não há registros de contaminação pela Delta na Bahia, mas a P.1 é dominante.

Somente após 21 dias da primeira dose é possível identificar a presença de anticorpos para o covid-19, ainda assim a quantidade varia a cada indivíduo. Os especialistas são unânimes de que apenas depois de quinze dias após a segunda dose o ciclo da imunização se completa, ainda assim as pessoas imunizadas podem transmitir a doença embora a chances de desenvolverem casos graves sejam mínimas.

Por isso é importante que as pessoas compareçam aos postos para receber a segunda dose no período especificado no cartão de vacina, não se reúnam com pessoas que ainda não estejam imunizadas - sendo este grupo composto por aqueles que não receberam o imunizante ou só receberam a primeira dose - e permaneçam higienizando as mãos e utilizando a máscara quando estiver em contato com pessoas de fora do seu núcleo de convivência doméstico. O uso de máscara é indispensável.

Retomar atividades presenciais sem avanço da vacina é atentado contra a vida

Em abril deste ano, o governo do Estado publicou decreto permitindo a retomada de atividades semipresenciais nos municípios em que a taxa de ocupação dos leitos hospitalares permanecesse em 75% no período de cinco dias consecutivos. Pela dificuldade de alcançar esse número num cenário caótico de mortes e contaminação como o enfrentado pela Bahia, o governador Rui Costa anunciou na última semana que "não dá mais para esperar": com 80% de ocupação dos leitos a retomada será permitida nas escolas públicas da rede de ensino.

Aqui, mais uma vez, constatamos uma comunicação que trabalha no sentido de desinformar mais do que de fornecer informações que auxiliem no controle da transmissão de casos. O mesmo governo Rui Costa que investe em campanhas para que as pessoas não se aglomerem para evitar aumento de sobrecarga dos hospitais e consecutivo número de mortes, afirma que com 80% da ocupação de leitos "não dá mais para esperar" para o retorno das atividades presenciais. Por acaso o governador desconhece as aglomerações que se formam dentro dos ônibus cotidianamente mesmo sem a circulação de estudantes nas ruas? Como conscientizar a população sobre os riscos de não fazer o distanciamento social quando o maior representante do Estado entende como prioridade lançar adolescentes, jovens aos riscos iminentes de exposição ao vírus mesmo diante da escassez de vacina e dificuldade de implementação de medidas sanitárias básicas, como instalação de pias e banheiros em locais públicos?

Apenas 11,39% da população baiana foi vacinada com segunda dose até esta segunda (21). As doses ainda chegam em quantidades limitadas e insuficientes para uma cobertura adequada que permita um nível de imunização segura para retomada das atividades presenciais. Enquanto não houver vacinação disponível para todas as pessoas habilitadas, falar em retorno presencial e exposição ao vírus permanece sendo um crime contra a vida. A Adufs, seguindo a normativa do Andes-SN, mantém seu posicionamento contrário ao retorno das atividades presenciais antes que haja vacinação em massa com ampla cobertura da segunda dose e condições sanitárias suficientes para preservação da vida.

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